Dezembro 2001

Este diário foi escrito deitada na rede na casa do Tota. O Tota e sua família (mulher e 6 filhos), moram no meio da Reserva Extrativista Chico Mendes à 40 km de uma pequena cidade Acreana chamada Assis Brasil.

Em apenas 5 dias na Reserva pudemos acompanhar de perto o trabalho do Seu Neném, um seringueiro de corpo franzino que tem os dedos da mão direita mais curtos que o da esquerda de tanto raspar canecas que coletam a borracha das seringueiras.

As crianças, nossas eternas anfitriãs, nos levavam aos cantos mais sagrados de suas aventuras e nos mostravam todas as etapas para construir suas “baladeiras” (ou estilingue). Aqui não precisa se comprar as típicas borrachinhas de farmácia, eles mesmos a fabricam derramando o “leite”de seringa em talas ocas de mamão ou taboca, deixando-a secar por aproximadamente uma semana.

Quase tudo o que se coloca na mesa desta família é extraído do próprio trabalho, eles aqui plantam seu próprio arroz, feijão, café, milho, mandioca, cana de açúcar, abacaxi e melancia. Criam galinhas, uma meia dúzia de vacas leiteiras e um bocado de porcos e patos. Carne não falta nunca pois além dessas tradicionais eles admiram muito a caça de animais como macaco, viado, jabuti, quatipuru e queixada.

Conhecemos também a jarina, uma semente branca e muito dura que eles usam para confeccionar, entre outros artefatos, os dados utilizados em jogos simples de mesa.

Em Catuaba, uma outra comunidade às margens do Rio Acre, fomos apresentados aos gostosos abraços de Dona Maria. Ela organizou junto a crianças e adultos rodas de cantigas e cirandas para que conhecêssemos suas velhas brincadeiras de infância. Foi ela também que nos apresentou a um fantástico instrumento musical chamado “Cavalo de cão” feito com dois paus unidos em forma de cruz com vários pedaços de latas cortadas e acopladas a ele.

“Irmão Caçula” como o chamou Mário de Andrade, o Acre era uma caixa de surpresa para nós. Fomos surpreendidos por um povo batalhador e criativo que fica indignado pelo descaso e preconceito dos outros Estados brasileiros em relação a esse “irmão caçula”. Um professor rural que nos intensificava essa realidade chegou a pedir que observássemos o Jornal Nacional da Rede Globo, e notaríamos que a senhorita que dá a previsão da temperatura não só não menciona o Acre, como se posiciona exatamente na frente deste Estado, impossibilitando qualquer visualização.
Esperamos sinceramente que as brincadeiras coletadas pelo Projeto BIRA sejam um caminho para aproximar o brasileiro de seu próprio país, e que cada brinquedo, cantiga ou verbete seja por si só um eco de nós mesmos.