Já era noite quando nosso barco desembarcou em Tefé, saído de Manaus. A época é de seca e, portanto, tivemos alguns percalços na viagem. Batemos 3 vezes no fundo do rio, fazendo com que todos os passageiros voassem para frente, inclusive a cozinheira que preparava o almoço à bordo, e ficou caída por alguns instantes entre as batatas, as cebolas e os frangos. Alguns saíram correndo à caça de coletes salva-vidas, outros buscavam nas suas sacolas seus terços e amuletos de proteção, e nós ali quietinhos atentos a todos os movimentos e prontos para cairmos no rio. Felizmente o fato só passou de uma suposta aventura amazônica.
Nossas brincadeiras aqui aconteceram em três comunidades ribeirinhas situadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, um verdadeiro santuário ecológico preservado com todo cuidado e responsabilidade pelo pessoal do Projeto Mamirauá, que vem desenvolvendo pesquisas ambientais e sociais em uma área de 1,1 milhão de hectares, bem no coração da Amazônia, quer dizer, em apenas um dos corações da Amazônia.
Enquanto nossa “voadeira” (barquinho com motor de popa) saía do Rio Solimões e entrava no Rio Japurá, começávamos a sentir o que nos aguardava. Fomos recepcionados por um bando enorme de mergulhões, botos e tucuxis, e pequenos olhinhos de jacarés que nos observavam desconfiados.
Logo a frente, quem nos recebeu sem a menor desconfiança foi o Seu Joaquim, o pai de todos da comunidade Boca do Mamirauá. O Seu Joaquim mora em uma casa flutuante, e nós fomos seus vizinhos por uma semana, também em uma casa que flutua no rio, sustentada por troncos enormes de uma madeira leve chamada açacú. Das janelas de nosso flutuante podíamos ver além de olhinhos de crianças que espremiam seus narizes nas telas anti mosquitos esperando por mais brincadeiras, um espetáculo de botos, macacos e jacarés por todos os lados. Todas as manhãs, pontualmente às seis horas, éramos acordados por um pássaro chamado ariramba, que vinha se aboletar no telhado do flutuante e fazia um barulho que é algo como uma máquina de escrever dessas tipo Olivette antigas, mas em um tom um pouco mais agudo.
O cenário das brincadeiras ficava a cargo de duas enormes castanheiras bem em frente do Rio Japurá, e foi bem aí que em uma das manhãs enquanto brincávamos de “Mamãe Polenta” , que entre um grito e outro das crianças, um dos meninos pediu silêncio pois estava ouvindo barulho de macacos acari, um macaco de pêlo branco e rosto vermelho que é bem difícil de se ver. Todos pararam e gritaram juntos: “Lá está!” Um bando deles.
Foram com esses mesmos meninos que passamos horas maravilhosas dentro da mata brincando de arco e flecha feitos de raminhos que voam longe mesmo, e procurando o pau de munguba para confeccionar pequenos botes, que são puxados por um fio conectado a uma varinha e movimentados por horas.
Já na comunidade de Juruamã, no Rio Solimões, conhecemos meninos que conseguiram nos provar o que achávamos que seria impossível: caçar moscas e mutucas com espingardinhas de taboca que atiram espinhos de tucumã. Um senhor de uma comunidade no Amapá, chamada Curiaú, já havia nos contado tal proeza, mas faz uns 30 anos que ele não testava tal modalidade infantil. Foi só em Juruamã que pudemos então não só provar que era verdade, como nos divertimos em vê-los amarrando um fio de cabelo no bumbum de uma mutuca, e na outra ponta amarrar um pedacinho de grama, que ao solta-lo faz com que leve consigo a marca de que meninos espertos moram na região.
Na terceira comunidade visitada em Mamirauá, a Vila Alencar, aprendemos com meninas de 9 e 10 anos a tirar talas de uma planta espinhosa chamada jauari, para confeccionar o tupé, uma espécie de tapete usado para dormir em cima. Aprendemos também a fazer bolas e bonecas de uma planta de consistência muito parecida com o isopor, chamada de aninga.
Passamos então exatos 21 dias dentro da Reserva Mamirauá entre brincadeiras e lavadeiras, tupés e tucunarés, açaús e pirarucus, bodós e cipós, apuís e tipitis, mas principalmente entre o carinho desses mais novos amigos que agora fazem parte desta parceria lúdica.