Realmente valeu a pena esperar quase uma semana em Boa Vista para finalmente conseguirmos entrar na aldeia Canoanim do povo Wapichana. Eles estavam em assembléia geral e nós participamos dela só no último dia, onde fomos sabatinados quanto aos propósitos de nossa estadia, quais os resultados deste trabalho e o que o povo Wapichana teria a ganhar com esse intercâmbio de brincadeiras populares.
Assim que se convenceram dos benefícios de uma troca cultural, pudemos então nos instalar na casa de uma das professoras locais, e demos início a novos vínculos e passamos a nos adaptar àquela nova realidade.
Bem cedinho você já ouve barulho de crianças com suas bicicletas enormes, geralmente pilotadas por um curumim mais velho que mesmo com dificuldades em alcançar os pedais, chega a carregar até 3 outros curumins a caminho da escola. A bicicleta é o meio de transporte mais freqüente nesta comunidade que tem por hábito construir suas casas bem distantes umas das outras.
Logo nos primeiros dias conhecemos a família da Dona Lúcia Cadete (filha do Seu Casemiro, um dos fundadores dessa comunidade). Ela tem 9 filhos e todos a ajudam muito nos trabalhos cotidianos. Na nossa primeira visita sua filhinha de 5 anos estava ao seu lado sevando e torrando a farinha de mandioca, mas assim que ouviu as badaladas da escola, anunciando o final do intervalo, ela saiu correndo de volta, mas ainda deu tempo de encher suas mãozinhas com aquela farinha quentinha.
Tivemos vários momentos especiais neste lugar, como a roda de estórias em volta de uma grande fogueira onde cada estória incentivava uma nova, e assim seguíamos até a lua se cansar. Ou mesmo quando íamos lavar nossas roupas no igarapé e éramos cercados por crianças que enquanto estávamos tomados por aquela tarefa, exibiam suas habilidades em escalar e saltar de grandes árvores, brincavam de “manja” na água (nosso pega-pega) e traziam buritis para comermos seus caroços.
Foi nessa comunidade que aprendi a fazer arapucas para pássaros e pequenos roedores e tomamos o famoso caxiri: bebida alcoólica fermentada da mandioca. Foi aqui também que reencontramos com os deliciosos piões de tucumã, aqueles mesmos que conhecemos pela primeira vez na aldeia dos índios Galibis no Oiapoque.
Estamos trazendo conosco muitos desenhos e textos dessas crianças que desejam também poder entrar em contato com crianças de diferentes partes do nosso país.