Setembro 2001


Chegamos em Santarém no final de agosto e recebemos uma visita muito especial de São Paulo: a Grete, que antes de ser uma ótima educadora é uma pessoa que emana muita vida. Ela passou 15 dias aqui conosco e fomos conhecer duas comunidades ribeirinhas, uma no rio Tapajós (Pajuçara) e outra no Arapiuns (Urucureá).
Pajuçara fica a 20 minutos de Santarém mas tem características de  comunidade isolada: casas de palha, fogões só à lenha, aranhas caranguejeiras por todos os lados, e banho só nas águas do rio. Conhecemos por lá a Iracema, uma professora que  nos deu um exemplo de dedicação e amor à arte de educar. Foi ela que conquistou o espaço da escola junto à prefeitura, que hoje é um galpão aberto com duas lousas penduradas nas pilastras de madeira, e um pequeno rancho ao fundo onde as crianças comem sua merenda. A classe multiseriada, e um Sol forte que invade as pequenas cadeiras das crianças, não a desanima de passar aos alunos suas cantigas de roda, lembranças da sua infância.  Foi ela quem nos cantou pela primeira vez a Farinhada, uma brincadeira bem regional, que convida os participantes que sabem peneirar a farinha a virem apresentar sua habilidade.
Para se chegar na comunidade do Urucureá tomamos um pequeno barquinho comandado pelo Sr. Batista, que nos confessou que seu amor aos barcos iniciou ainda na infância, com suas réplicas de embarcações em miriti.
Foi debaixo das seringueiras e cajueiros que as brincadeiras e histórias rolaram soltas em Urucureá, onde conhecemos uma banda inteira formada por tamborzinhos de lata forrados de látex e baquetas de pau de goiabeira.
Os brinquedos aqui não chegam prontos de lojas ou fábricas, são conquistados arduamente.  Foi o que vimos quando levamos uma manhã inteira acompanhando o Rodrigo, um menino de 15 anos, na sua missão de construir seu pião de madeira. Nesta manhã andamos um longo trecho dentro de uma floresta fechada, a procura da tal madeira de vassoura. Assim que ele avistou a árvore pegou logo o seu “terçado”, como é chamado o facão por aqui, e começou a cortar uma das maiores ramificações da árvore. Meu senso ecológico dizia que era possível cortar bem menos do que aquele grande tronco para se fazer um pião, mas o conhecimento lúdico do Rodrigo supera qualquer ecologista: o tronco grosso faz um pião mais resistente, disse ele. Assim sendo lá vamos nós tentar tirar aquele longo tronco para fora da floresta. Terçado na mão e tronco no chão, foram necessários muitos golpes para o primeiro pião ficar pronto. É claro que com o primeiro pronto, não faltaram pedidos dos mais novos para que o Rodrigo lhes fizessem um.
E assim vão acontecendo as brincadeiras por aqui, um ensina ao outro, que nos ensina, que ensinamos a todos aqueles que querem brincar.