RENATA MEIRELLES

Vou começar esta seção deixando claro que quem escreve aqui é o David. A Renata organizou todos os outros textos deste site, e deixou este para mim. Sua modéstia não lhe permite pensar claramente sobre o que escrever sobre nós. Porém, caso você leia o trecho “COMO SURGIU”, você já entenderá o essencial: Renata é uma mulher excepcional que cresceu com um saudável desejo de permanecer criança. Ela era fascinada por sua infância, e enquanto crescia continuava a valorizar os filtros mágicos que as crianças usam para ver, ouvir, tocar e comunicar. Seu contato com esses filtros alimentaram um desejo, às vezes consciente outras vezes não, de estar perto das pequenas-grandes aventuras que acontecem em qualquer quintal, rua, praia, campo ou floresta. Ela mergulhava nestas aventuras desde adolescente, quando se tornou uma verdadeira líder no Movimento Bandeirante.Enquanto cursava a desmotivante Faculdade de Educação Física acabou se dando conta que brincadeiras de crianças são uma forma universal de expressão humana. Textos sobre alongamentos e esportes de alto nível eram rapidamente trocados por pesquisas sobre jogos tradicionais e brinquedos pelo mundo.Logo veio a constatação de que livros, mesmo que contenham informações essenciais, não eram os melhores recursos para conseguir aprender alguns jogos tradicionais, mais ou menos como se quisesse sair nadando depois de ler alguns manuais de natação. Precisava ir aonde as expressões do brincar existem e são experimentadas em primeira mão. Renata vem fazendo viagens de pesquisas dessas brincadeiras há anos. Mesmo sendo o Projeto BIRA a pesquisa de maior intensidade, ela esteve também pesquisando brinquedos e brincadeiras no Mato Grosso, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro, Ceará, Bahia e São Paulo. Com a experiência e os registros trazidos dessas pesquisas Renata ministra cursos, oficinas, workshops e palestras em escolas públicas e particulares, universidades, instituições culturais e ongs. Hoje, enquanto ministra seus cursos para educadores, ou organiza brincadeiras com crianças, sua ênfase é sempre a mesma: colocar as pessoas literalmente em contato. Foi isso que essas crianças das mais diversas regiões brasileiras disseram com suas brincadeiras. Atualmente, Renata está conseguindo ter uma visão mais de perto do material que coletou com o Projeto BIRA. Ela está terminando sua tese de mestrado na Faculdade de Educação da USP sobre esse tema. Ela está aproveitando as imagens em vídeo, as fotos e as memórias que vieram conosco da Amazônia, analisando-as dentro de uma linha da poética do imaginário, e eu não posso esperar para ver o resultado!

DAVID REEKS

Terminei o curso de Literatura e Sociologia pela State University of New York em Binghamton em 1999. Sem planos específicos de carreira e com a preocupação de não cair em um trabalho sem sentido, passei a unir o "ganha pão" com a esperança de que novas experiências me trouxessem o sentido maior para minha vida. Viajei para o Brasil na virada do século e me apaixonei por este país e sua cultura. Em apenas um mês da minha chegada, estava tocando em um grupo de Cavalo Marinho, o “Boi Marinho”, que é uma manifestação popular de Pernambuco. Essas experiências não podiam ter sido mais novas para mim, e resolvi estender minha permanência de dois para seis meses.Durante este tempo conheci um Brasil que a maioria dos brasileiros não conhece. No último mês em uma festa, tive uma conversa que mudou minha vida: conheci Renata, que me contou sobre suas pesquisas independentes de brinquedos e brincadeiras. Naquela época ela planejava o Projeto BIRA , e me agreguei então à esta idéia. Voltei para os Estados Unidos e trabalhei para comprar o equipamento de filmagem. Voltei ao Brasil em 2001 para iniciar o Projeto BIRA. Tudo era intenso; o calor da Amazônia e a falta de infra estrutura (a que eu estava acostumado) tinham uma ligação direta com a infância que estávamos procurando. Enquanto nosso projeto tomava corpo, sentia que aprendia coisas novas diariamente: que a esperança é possível de se concretizar, que filmar crianças não é tão simples assim, que certas carnes não foram feitas para todos os estômagos,  e que a vida, aonde quer que aconteça, sempre tem a capacidade de surpreender. Passei também a desejar ter sido uma criança amazonense, mas percebi que esse desejo foi em parte concretizado com o tempo em que estive na Amazônia, onde aprendi a fazer pipas com talas de miriti, piões de semente de tucumã ou de pau de goiabeira, além de precisas espingardinhas de bambu para caçar mutucas. Com tanto investimento na produção de documentários e na vida infantil, os medos de cair em um trabalho sem sentido desapareceram  e a estrutura de uma nova carreira se firmou.