(texto de Renata Meirelles)
Desde criança eu sentia uma vontade enorme de conhecer as mais diversas realidades brasileiras. Quando viajava com meus pais pregava os olhos nas janelas do carro e me imaginava entrando em cada casinha de beira de estrada. Inventava nomes e destinos para aquelas crianças de corpos descalços e olhos constantemente direcionados aos ventos, para aqueles senhores de bengalas tortas que passavam horas debaixo de jacarandás, em bancos de tábuas rotas.
Mesmo sem querer muito cresci adulta e pude sair do carro, e bater na porta da vida dessas pessoas que eu teimava em conhecer.
Lembro dos meninos em Canoa Quebrada, no Ceará, com suas jangadas de chinelos de dedos que ficavam idênticas aos dos seus pais. Dos garotos de uma carvoaria no Mato Grosso que todo dia trocavam a fuligem do carvão no corpo pelo barro argiloso do córrego e aproveitavam para criar os mais interessantes personagens com aquele barro. Das crianças Xavantes, do cerrado do Mato Grosso, e suas pernas de pau de forquilha. Do senhor Zico de Colina, em São Paulo, que espantava os gatos de dentro de sua mercearia enquanto me ensinava um vasto repertório de brinquedos da sua infância, todos feitos com restos industriais. Das crianças nos gramados das imperiais igrejas de Tiradentes, Minas Gerais, com suas sacolinhas de bolinhas de gude gritando entre elas palavras-códigos que só entende quem sabe jogar. E tantas outras histórias que foram agregadas às minhas histórias inventadas.
A infância e as brincadeiras de cada lugar que passava eram sempre o que primeiro me atraia. Vinha então, desde 1991, descobrindo que o brincar e toda cultura infantil seria o meu caminho para ser verdadeiramente adulta. Passei a buscar estratégias para não me afastar das crianças e não institucionalizar demais meu trabalho.
Em 1999 viajei de férias para algumas regiões da Amazônia e meus olhos não desgrudavam da infância de beira de rios, que saiam daquelas casas altas com pernas de pau.
Voltei decidida a criar um projeto que possibilitasse um aprofundamento no reconhecimento da cultura infantil desta região tão vasta e tão líquida. Precisava primeiro encontrar um parceiro que me acompanhasse e se reponsabilizasse pelos registros das imagens em vídeo. Essa parceria não poderia ter sido melhor, David Reeks ia dia a dia revelando que atrás do azul-esverdeado de seus olhos, mora um menino doce de mãos firmes que segura na câmera a infância do jeito que ela é. Tudo tão apaixonante que não seria outro o destino: nos casamos ao final do trajeto.
Viabilizar este projeto só mesmo com o apoio de parentes e amigos que nunca duvidaram do tamanho de nosso desejo.
Apoios e parcerias começaram a surgir de Ongs e instituições diversas que trabalham com comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia (vide apoios), e que foram nossos verdadeiros “mateiros”, aqueles que abrem os caminhos pela floresta à dentro, e encurtam as distâncias.
Foi assim então que nasceu o BIRA .